Dislipidemia na infância e adolescência

O termo DISLIPIDEMIA refere-se ao aumento das gorduras no sangue. A pesquisa da dislipidemia na infância e adolescência tem se tornado uma recomendação na prática diária devido aos trabalhos científicos que demonstram que a aterosclerose (acúmulo de placas gordurosas nas artérias) pode ser um fenômeno precoce.

As evidências atuais indicam que a prevenção da doença aterosclerótica deve se iniciar na infância. Estudos demonstram que as alterações de aterosclerose na aorta e artérias coronárias se iniciam precocemente na infância, sendo mais relevantes à medida que o número de fatores de risco cardiovascular aumentam. O período de maior progressão ocorre a partir dos 15 anos de idade.

A partir desses dados torna-se claro que medidas preventivas devem ser adotadas desde os primeiros anos de vida. O controle dos fatores de risco como a prevenção da obesidade, a orientação de hábitos alimentares saudáveis e o incentivo à amamentação são medidas que devem ser incentivadas. Vários estudos indicam que bebês que ingerem exclusivamente leite materno, rico em gorduras saturadas, apesar de apresentarem níveis elevados de colesterol no início da vida podem apresentam um perfil lipídico mais favorável na adolescência quando comparadas a crianças que receberam fórmulas artificiais.

No Brasil, a prevalência de dislipidemia situa-se entre 28 e 40% das crianças e adolescentes, quando o critério adotado é o CT sérico superior a 170 mg/dL .

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As dislipidemias podem ser classificadas em primárias ou secundárias.

As Dislipidemias Primárias são conseqüentes a causas genéticas, algumas mais leves, só se manifestando em função da influência ambiental. As formas mais comuns são:

  • Hipercolesterolemia familiar (HF): é a mais comum, caracterizada por níveis muito elevados de Colesterol total, história familiar de hipercolesterolemia e doença cardiovascular prematura. Deve-se suspeitar s de HF em crianças e adolescentes com níveis de colesterol total > 270 mg/dL ou LDL-C > 200 mg/dL;
  • Hipertrigliceridemia: pacientes com níveis muito elevados de Triglicerídeos (Tg). Esses pacientes apresentam grave risco de pancreatite e elevado risco cardiovascular. Níveis de Tg entre 100 e 200 mg/dL geralmente estão relacionados à obesidade e acima de 200 mg/dL geralmente relacionados a alterações genéticas.

As Dislipidemias secundárias são as mais comuns, principalmente relacionadas a erros alimentares e obesidade. Vários estudos epidemiológicos têm demonstrado um aumento expressivo na prevalência mundial da obesidade de início na infância. Esses dados se tornam muito preocupantes pela forte associação entre obesidade e hipertensão, dislipidemia e Diabetes tipo II com início já na infância. Há uma associação positiva entre a incidência da obesidade e dislipidemia em crianças. Pacientes com síndrome metabólica e resistência insulínica apresentam um perfil lipídico característico: aumento de Tg com redução dos níveis de HDL-C, podendo haver aumento ou não de CT.

 

As dislipidemias também podem ser causadas por doenças ou uso de medicamentos ( Diabetes tipo 1, Hipotireoidismo, Síndrome nefrótica, Insuficiência renal crônica, doenças hepáticas , uso crônico de diuréticos, anticoncepcionais, anabolizantes, isotretinoína, ciclosporinas, inibidores da protease)

Quando pesquisar dislipidemia na infância:

 

A análise do perfil lipídico deve ser solicitados em crianças acima de 2 anos de idade nos seguintes casos:

  • Pais ou avós com história de aterosclerose com idade menor que 55 anos;
  • Pais com CT>240 mg/dL;
  • Presença de outros fatores de risco, como hipertensão arterial, obesidade, tabagismo ou dieta rica em gorduras saturadas e/ou ácidos graxos trans;
  • Uso de drogas ou portadoras de doenças que cursam com dislipidemia
  • Possuam manifestações clínicas de dislipidemias (lesões de pele características (xantomas, xantelasmas), dores abdominais recorrentes, pancreatites).

Recomenda-se triar crianças acima de dois anos de idade a cada 3 a 5 anos e adolescentes acima de 16 anos a cada cinco anos se existirem os fatores de risco acima.

Recomendações para o tratamento das dislipidemias na infância e adolescência

A primeira orientação deve ser de dieta com baixos teores de gordura saturada e colesterol, aumento de fibras, e outras medidas dietoterápicas. O tratamento medicamentoso é indicado para os pacientes de maior risco, acima de oito anos de idade e que apresentem as seguintes características:

 

LDL-C maior ou igual a 190 mg/dL

Ou

LDL-C maior ou igual a 160 mg/dL e 2 ou mais fatores de risco cardiovascular (sobrepeso, obesidade, sinais de resistência insulínica, história familiar de doença vascular prematura, hipertensão arterial, tabagismo)